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Eu sei
Nada pode ser o que pensei
E a vida não é o que sonhei
Por isso as lágrimas são inevitáveis
Por isso o medo tem coragem
De fazer chantagem
De roubar a imagem
De tudo aquilo que planejei pra nós
Agora vou calar a minha voz
Agora vou caminhar a sós
Eu sei
Que seus olhos são as luzes da minha cidade
E eu só sou querer e vontade
Vendo que fugiu a minha  mocidade
Vi que não há caminhos
Nos descaminhos
E que eu não sei caminhar sozinho

E de verdade eu não sei
Que a mocidade, desperdicei
Que virou lágrimas, o que amei
Eu sei
Descobri que o rio não mata minha sede
Que a ilusão descansa na minha rede
E o medo é o meu retrato na parede
O meu espelho reflete a minha cor
O meu sorriso reflete a minha dor
O meu coração reflete o meu amor
Esquecido à beira de uma estrada
Vestido com o quase nada
No frio da madrugada
Eu sei
Que  tudo que amei
Que as flores que plantei
E os sonhos que sonhei
Estão como pássaros engaiolados
Bichos enjaulados
Menino amedrontado
Por uma assombração
Que lhe arranca o coração
É o demônio da ilusão
Eu sei
Que a muito tempo eu enfrentei
Com palavras que falei
E agora eu bem sei
Que eu não deveria dizer
Porque sei, que o desejo de viver
Pode me fazer morrer
Agora olho para o céu pedindo socorro
Porque eu preciso sonhar de novo
Eu sei
Assim, possa ser que eu não morra
Mesmo que esse sonho se dissolva
E eu veja um sorriso na minha cara boba
Então que um anjo viva em mim
Que o demônio fuja, sim
E eu vou sorrir em fim
Porque vai abrir a porta
E eu vou ter de volta
A minha vida, mesmo torta.